Monte Usu
Um vulcão altamente ativo em Hokkaido que cria novas montanhas, destrói cidades e ensinou o mundo a viver com a fúria vulcânica.
Monte Usu: O Vulcão Que Nunca Mente
O Monte Usu (Usuzan) não é o vulcão mais alto do Japão, nem o mais bonito. Falta-lhe a simetria perfeita do Monte Fuji. Mas o que lhe falta em estatura, compensa em personalidade e previsibilidade. Parado na borda sul da vasta Caldeira Toya em Hokkaido, o Monte Usu é um metamorfo geológico, uma montanha que está constantemente se demolindo e se reconstruindo, muitas vezes bem nos quintais das pessoas que vivem lá.
Este vulcão é famoso não apenas por suas erupções, mas pela relação entre a montanha e a cidade de Toyako Onsen. É uma relação definida por uma filosofia única: “conviver com o vulcão”. Aqui, o vulcão não é um inimigo a ser temido, mas um vizinho a ser respeitado — um vizinho que fornece fontes termais, solo fértil e turismo, mas que ocasionalmente exige que você saia de casa às pressas.
O Vulcão Que Te Avisa
O Monte Usu entrou em erupção quatro vezes nos últimos 110 anos: 1910, 1944-45, 1977-78 e 2000. Essa regularidade (a cada 20 a 50 anos) o torna um dos vulcões mais ativos do Japão. No entanto, também é conhecido como “O Vulcão Mentiroso” (em um sentido irônico) ou “O Vulcão Honesto”, porque nunca entra em erupção sem aviso.
- Terremotos Precursores: Toda grande erupção na história registrada do Usu foi precedida por um enxame distinto de terremotos causados pela elevação do magma. A duração desse aviso varia — de alguns dias a vários meses — mas está sempre lá.
- O Milagro de 2000: A erupção de 31 de março de 2000 é um exemplo clássico de mitigação de desastres bem-sucedida. Em 27 de março, intensos terremotos começaram. Reconhecendo os sinais de gerações anteriores, cientistas e autoridades locais ordenaram uma evacuação preventiva. Mais de 10.000 residentes e turistas foram evacuados de Toyako Onsen. Quando o vulcão finalmente entrou em erupção quatro dias depois, abrindo novas crateras bem perto do centro da cidade, nenhuma pessoa morreu ou ficou ferida.
O Nascimento de Showa-shinzan (1943-1945)
Um dos eventos geológicos mais extraordinários do século XX aconteceu aqui, no meio da Segunda Guerra Mundial.
- O Campo de Trigo: Em 1943, um campo de trigo plano no sopé do Monte Usu começou a tremer. O solo começou a subir.
- O Crescimento: Nos dois anos seguintes, o campo se elevou cada vez mais. Um domo de lava viscosa rompió a superfície, empurrando o solo e as plantações para cima como um telhado. Enquanto o mundo travava uma guerra, um agente postal local chamado Masao Mimatsu lutava para documentar esse milagre. Ele comprou a terra para salvá-la do desenvolvimento e criou o “Diagrama de Mimatsu”, uma série de esboços rastreando o crescimento da montanha.
- O Resultado: em 1945, o campo de trigo havia se tornado um vulcão de 398 metros (1.306 pés) de altura. Foi nomeado Showa-shinzan (“Nova Montanha da Era Showa”). Hoje, ainda fumega, um domo de lava vermelho e bulboso que parece uma ferida aberta na paisagem verde. É um dos poucos lugares na Terra onde os humanos testemunharam o nascimento de uma montanha do início ao fim.
- O Legado de Mimatsu: Masao Mimatsu comprou a terra usando as economias de toda a sua vida, não para fins lucrativos, mas para proteger a “nova montanha bebê” da mineração de enxofre. Ele ficou conhecido como o “dono de um vulcão”. Seus diagramas detalhados foram apresentados em conferências geológicas internacionais e foram elogiados por sua precisão, provando que a ciência cidadã pode rivalizar com o monitoramento profissional. Uma estátua de Mimatsu está na base da montanha, vigiando para sempre seu “filho”.
As Erupções de 1977 e 2000
As erupções de Usu são diversas. Às vezes, ele constrói domos; às vezes explode cinzas; às vezes cria explosões freáticas.
- 1977-1978: Esta foi uma erupção pliniana (liberação explosiva de cinzas) seguida pelo crescimento do domo. Cobriu as exuberantes terras agrícolas de Hokkaido com uma espessa cinza cinza. A erupção continuou por um ano, construindo um novo pico chamado Usu-Shinzan dentro da cratera do cume.
- 2000: Esta erupção foi diferente. Não aconteceu no cume. Em vez disso, o magma procurou um novo caminho, rompendo o flanco ocidental bem ao lado da cidade.
- Novas Crateras: Mais de 60 novas crateras se abriram. Explosões de vapor lançaram rochas através dos telhados.
- Falhas e Deformação: O solo mudou dramaticamente. Estradas foram destruídas e edifícios foram esmagados não pela lava, mas pelo solo se movendo sob eles. Um complexo habitacional público foi notoriamente elevado em vários metros e torcido pela deformação.
Geoparque Global da UNESCO Toya-Usu
A área agora faz parte do Geoparque Global da UNESCO Toya-Usu, o primeiro desse tipo no Japão. A filosofia aqui é distinta: Preservar o desastre.
- As Ruínas: Em vez de limpar todos os danos da erupção de 2000, a cidade decidiu preservar algumas estruturas destruídas como memoriais e locais educacionais.
- O Jardim de Infância: Você pode caminhar por uma trilha passando por um jardim de infância que foi destruído por rochas e cinzas. Lá dentro, você ainda pode ver os armários e brinquedos das crianças, congelados no tempo (todos evacuaram com segurança).
- A Estrada Danificada: A trilha “Estratégia das Crateras Konpira” leva você ao longo de uma estrada pavimentada que simplesmente desaparece em um lago de cratera, enquanto outras seções são dobradas em ondas de asfalto.
- Os Banhos Públicos: As ruínas de uma casa de banho pública ficam meio submersas na lama, um lembrete gritante dos fluxos de lama que se seguiram à erupção.
- As Crateras de 1910: Uma curta trilha de caminhada leva às crateras formadas durante a erupção da era Meiji. Agora são depressões pacíficas e arborizadas, mas o solo ainda está quente em alguns lugares. Serve como um lembrete de que a “paz” aqui é relativa.
- O Museu de Ciência do Vulcão: Localizado no centro da cidade, este museu é uma visita obrigatória. Abriga uma “sala de experiência vulcânica” com uma tela enorme e piso vibrante que recria a erupção de 2000. Também exibe as histórias pessoais dos moradores — diários, fotos e entrevistas gravadas — que humanizam os dados geológicos.
- Rede Global: Como Geoparque Mundial da UNESCO, Toya-Usu faz parte de uma rede internacional. Ele organiza regularmente conferências onde especialistas de regiões vulcânicas como Islândia, Itália e Indonésia se reúnem para compartilhar estratégias sobre evacuação, turismo e educação. É um líder global em “sociologia de vulcões”.
Turismo: Fontes Termais e Teleféricos
Apesar do perigo, Toyako é um destino turístico próspero.
- Toyako Onsen: A cidade é famosa por suas fontes termais (onsen). Ironicamente, a erupção de 1910 criou a fonte termal da qual a cidade depende. O vulcão dá e o vulcão tira. Todas as noites, durante seis meses do ano, fogos de artifício são lançados sobre o Lago Toya — não fogo vulcânico, mas uma celebração da vida.
- Teleférico Usuzan: Um teleférico leva os visitantes da base de Showa-shinzan até a borda da cratera principal de Usu.
- A Caminhada na Borda da Cratera: Da estação superior do teleférico, uma trilha leva ao longo da borda. À direita, você olha para a enorme cratera de 1977 e o domo de 1978 ainda fumegante. À esquerda, você tem uma vista panorámica do Lago Toya, um lago de caldeira gigante formado por uma erupção catastrófica há 110.000 anos. Ao longe, o “Ezo Fuji” (Monte Yotei) ergue-se perfeitamente cônico contra o céu.
O Futuro
O Monte Usu está atualmente quieto, mas está respirando.
- Monitoramento: A montanha está conectada como um paciente em uma UTI. Sismógrafos, estações de GPS e câmeras monitoram cada tremor e protuberância.
- O Próximo: Os cientistas sabem que ele entrará em erupção novamente, provavelmente nas próximas décadas (dado o ciclo de 20 a 50 anos). A cidade está pronta. Exercícios de evacuação são regulares. Mapas de perigos estão em todos os quartos de hotel.
- Resiliência: O povo de Toyako decidiu que os benefícios de viver neste lugar bonito, fértil e geologicamente ativo superam os riscos. Eles aprenderam a ler a linguagem da montanha. Quando Usu fala, eles ouvem,
A Ressurreição da Natureza: Flora e Fauna
Um dos aspectos mais fascinantes do Monte Usu é a velocidade com que a natureza se recupera após uma erupção. O vulcão não apenas destrói; ele reinicia o relógio ecológico.
- As Plantas Pioneiras: Os primeiros colonizadores da cinza vulcânica estéril são espécies resistentes como o knotweed japonês (Polygonum cuspidatum) e várias gramíneas dos pampas. Essas plantas têm sistemas radiculares profundos que estabilizam o solo solto e previnem a erosão. Elas morrem e se decompõem, criando uma fina capa de matéria orgânica que abre caminho para as árvores.
- A Floresta de Sucessão: Em poucas décadas, o que era um terreno baldio cinzento se transforma em uma jovem floresta de bétulas e choupos. Essas árvores de folhas largas de crescimento rápido prosperam no solo vulcânico banhado pelo sol. Visitantes caminhando pelas trilhas perto das crateras de 1977 podem ver essa “floresta de sucessão” em ação — um livro didático vivo de ecologia.
- Retorno da Vida Selvagem: À medida que a vegetação retorna, os animais também retornam. As florestas ao redor do Monte Usu abrigam a Raposa Vermelha de Ezo, o Veado de Ezo e a majestosa Águia-de-cauda-branca. O urso pardo (Higuma), símbolo de Hokkaido, também vaga pelas encostas mais baixas, procurando por frutas silvestres que crescem em abundância no solo vulcânico ácido. A recuperação do ecossistema reflete a recuperação da comunidade humana próxima — ambos estão adaptados ao ciclo de destruição e renascimento.
Conclusão
O Monte Usu é uma aula magistral em convivência. Desafia a noção ocidental de “conquistar” a natureza. Aqui, a natureza é uma força dominante que não pode ser domada, apenas compreendida. O domo vermelho de Showa-shinzan e as estradas quebradas da erupção de 2000 servem como monumentos à energia inquieta da Terra, enquanto a movimentada cidade ao lado serve como um monumento à adaptabilidade humana. É um lugar onde a destruição e a criação dançam um tango que dura milênios.