Sabancaya
Um estratovulcão altamente ativo nos Andes do sul do Peru, famoso por fazer parte de um complexo vulcânico maior.
Sabancaya, cujo nome se traduz como “Língua de Fogo” na língua indígena Quíchua, é um dos vulcões mais consistentemente ativos e perigosos do Peru. Erguendo-se a uns imponentes 5.967 metros (19.577 pés) na Cordilheira dos Andes, no sul do Peru, forma parte de um enorme complexo vulcânico que inclui os picos adormecidos Ampato e Hualca Hualca. Durante décadas, o Sabancaya foi um gigante adormecido, ofuscado pelo seu vizinho Ampato, o local da famosa descoberta da “Dama do Gelo”. No entanto, desde o seu despertar na década de 1980, recuperou o seu título como uma sentinela ardente do Vale do Colca, hipnotizando turistas e mantendo os vulcanólogos em alerta máximo.
O Cenário Geológico: A Zona Vulcânica Central
O Sabancaya é um estratovulcão localizado na Zona Vulcânica Central (ZVC) dos Andes, uma região moldada pela subducção da Placa de Nazca sob a Placa Sul-Americana.
- Um Gigante Jovem: Geologicamente falando, o Sabancaya é um jovem. É o centro ativo mais recente no complexo Ampato-Sabancaya-Hualca Hualca, com a maior parte do seu cone construído durante a época do Holoceno (os últimos 10.000 anos). Esta juventude correlaciona-se com a sua instabilidade e atividade vigorosa.
- O Complexo: O vulcão está construído na sela entre o mais antigo e erodido Hualca Hualca (6.025 m) e o maciço e glaciário Ampato (6.288 m). Esta localização é crítica porque as erupções do Sabancaya depositam frequentemente cinzas escuras e absorventes de calor na extensa calota de gelo do Ampato, criando uma interação complexa entre fogo e gelo.
- Magma Andesítico: A lava produzida pelo Sabancaya é principalmente Andesítica e Dacítica. Estes magmas são viscosos e ricos em gás, uma combinação mortal que leva a erupções explosivas em vez de fluxos de lava suaves. A enorme pressão que se acumula dentro da conduta resulta nas frequentes explosões Vulcanianas que caracterizam o vulcão hoje.
Uma História de Fogo: Ciclos Eruptivos
Após cerca de 200 anos de dormência, o Sabancaya acordou em grande estilo em 1986. Desde então, experimentou vários períodos eruptivos intensos.
- O Despertar de 1986: O redespertar começou com um enxame de sismos seguido por explosões freáticas (impulsionadas por vapor). Isto marcou o fim de um longo sono e sinalizou uma nova era de atividade para a região. A fase inicial foi caracterizada pela limpeza da ventilação, expelindo rochas antigas e abrindo caminho para o magma fresco.
- O Ciclo 1990-1998: Este período viu o vulcão atingir o pico de atividade, produzindo grandes colunas de cinzas que frequentemente polvilhavam as aldeias próximas do Vale do Colca. A atividade foi explosiva, gerando fluxos piroclásticos e quedas de cinzas significativas que impactaram a agricultura local.
- A Fase Atual (2016-Presente): Em novembro de 2016, o Sabancaya entrou numa nova e prolongada fase eruptiva que continua até hoje. É caracterizada por um ritmo quase diário de explosões — por vezes até 50 por dia. Estas explosões enviam plumas de cinzas que sobem de 3 a 5 quilómetros acima da cratera, visíveis da cidade de Arequipa, a 70 quilómetros de distância. A consistência desta atividade tornou o Sabancaya um “vulcão laboratório” para cientistas que estudam erupções explosivas de longo prazo.
A Descoberta de “Juanita”: A Dama do Gelo
Embora o Sabancaya seja a ameaça ativa, está inextricavelmente ligado a uma das descobertas arqueológicas mais significativas do século XX, que ocorreu no seu vizinho, Ampato.
- Cinzas e Gelo: Em 1995, o Sabancaya estava a erupcionar vigorosamente. As nuvens de cinzas escuras e quentes derivaram sobre o cume do Ampato, assentando nos seus glaciares. As cinzas escuras absorveram a luz solar de alta altitude, fazendo com que o gelo derretesse rapidamente. Este derretimento causou o colapso de uma secção da crista do cume, expondo um fardo que estivera congelado durante 500 anos.
- A Descoberta: O antropólogo Johan Reinhard e o seu parceiro de escalada Miguel Zárate avistaram o fardo durante uma subida. No interior, preservado perfeitamente pelo congelamento profundo, estava o corpo de uma jovem rapariga Inca. Ela ficou conhecida como Juanita, a Dama do Gelo.
- O Sacrifício: Juanita foi um sacrifício Capacocha, uma oferta aos Apus (deuses da montanha). Os Incas acreditavam que montanhas como o Ampato e o Sabancaya controlavam o clima e o abastecimento de água. Ao sacrificar as suas crianças mais perfeitas, esperavam apaziguar os deuses e parar erupções, secas ou terramotos. A descoberta de Juanita proporcionou uma janela sem precedentes para o mundo espiritual do Império Inca e a sua relação com estes picos voláteis.
Impacto Ambiental: O Degelo dos Glaciares
A relação entre o Sabancaya e a criosfera circundante (mundo do gelo) é destrutiva.
- Derretimento Acelerado: O “efeito albedo” está em força total aqui. A neve fresca reflete 90% da luz solar, mantendo os glaciares frescos. A cinza vulcânica é cinzenta escura e absorve o calor. Quando o Sabancaya cobre os glaciares do Ampato e Hualca Hualca com cinzas, as temperaturas da superfície sobem, levando a um derretimento rápido mesmo em temperaturas do ar abaixo de zero.
- Segurança Hídrica: Estes glaciares são as torres de água dos Andes. Alimentam o Rio Colca, que sustenta as dezenas de milhares de agricultores no Vale do Colca abaixo. Embora o derretimento proporcione um aumento temporário no fluxo de água, a perda a longo prazo dos glaciares ameaça o futuro agrícola da região.
- Ameaça de Lahar: O gelo derretido também representa um perigo imediato. Se ocorrer uma grande erupção durante o inverno, quando a cobertura de neve é pesada, o derretimento rápido pode gerar lahars — fluxos mortais de lama composta por água, cinzas e rochas que podem descer pelas ravinas e inundar aldeias como Maca e Cabanaconde.
Turismo: A Porta de Entrada para o Canyon de Colca
O Sabancaya paira sobre um dos principais destinos turísticos do Peru: o Canyon de Colca.
- O Canyon Mais Profundo: O Canyon de Colca é duas vezes mais profundo que o Grand Canyon e é uma grande atração para visitantes. O Sabancaya fornece um cenário dramático e fumegante para as encostas em socalcos e os condores planadores.
- Observação de Vulcões: Ver uma erupção a partir dos miradouros (Miradors) do canyon é um destaque para muitos viajantes. A visão de uma nuvem em forma de cogumelo fresca a expandir-se no céu azul-cobalto andino é um lembrete poderoso do dinamismo da Terra.
- A Rota do “Anel de Fogo”: Uma rota de trekking popular leva caminhantes aventureiros à volta da base do complexo vulcânico. Embora escalar o próprio Sabancaya seja estritamente proibido devido ao risco de explosão, os alpinistas sobem frequentemente o vizinho Ampato ou Hualca Hualca para uma vista panorâmica da cratera ativa. Destes pontos de vantagem seguros, pode-se olhar para a garganta do vulcão e ver as explosões iniciarem-se.
Explosividade Constante
Desde 2016, o Sabancaya entrou numa fase de atividade explosiva quase contínua. Num dia típico, o vulcão produz dezenas de explosões moderadas que enviam nuvens de cinzas a vários quilómetros para a atmosfera. Esta atividade localizada constante torna-o um caso de estudo “de manual” para os estilos de erupção Estromboliana e Vulcaniana nos altos Andes. As plumas de cinzas são uma visão comum para as comunidades locais e turistas que visitam o vizinho Canyon de Colca.
Pesquisa Recente: Estudos de Infrassom
O Sabancaya tornou-se um ponto de interesse global para o estudo de infrassom — ondas sonoras abaixo da frequência da audição humana.
- Impressões Digitais Acústicas: Cientistas de todo o mundo instalaram conjuntos de microfones à volta da cratera. Descobriram que o vulcão produz um ruído acústico distinto de “chug-chug”, semelhante a uma locomotiva a vapor, minutos antes de uma explosão. Este som é causado por bolhas de gás a vibrar enquanto ascendem pela coluna de magma.
- Potencial de Aviso Prévio: Ao analisar estas assinaturas de infrassom, os investigadores esperam desenvolver um sistema fiável de aviso a curto prazo. Se a frequência do “chug-chug” mudar, pode indicar uma acumulação de pressão que pode levar a uma explosão maior que a média. Esta técnica de monitorização não invasiva está a revolucionar a forma como compreendemos os vulcões de ventilação aberta.
Vida a 6.000 Metros: Flora e Fauna
Apesar das condições adversas — ar rarefeito, noites geladas e chuva sulfúrica — a vida persiste à volta do Sabancaya.
- A Vicunha: As planícies de alta altitude (Puna) que rodeiam o vulcão são o lar da Vicunha, um parente selvagem da alpaca. Estes animais graciosos têm a lã mais fina do mundo e são frequentemente vistos a pastar na dura erva Ichu, imperturbáveis pelo estrondo distante do vulcão.
- O Condor Andino: As correntes térmicas geradas pelo vulcão e as paredes profundas do canyon fornecem a sustentação perfeita para o Condor Andino. Com uma envergadura de mais de 3 metros, estes necrófagos patrulham os céus acima do Sabancaya, possivelmente confundindo as colunas de cinzas com correntes térmicas.
- Plantas Resilientes: Apenas as plantas mais resistentes sobrevivem aqui. A Yareta (Azorella compacta) parece uma rocha coberta de musgo, mas é na verdade uma colónia de milhares de flores minúsculas. Cresce milímetros por ano e pode viver milhares de anos, sobrevivendo a ser enterrada por cinzas e neve.
Monitorização e Segurança
O Observatório Vulcanológico do INGEMMET (OVI) e o Instituto Geofísico do Peru (IGP) mantêm uma vigilância atenta sobre o Sabancaya.
- A Rede: Uma rede sofisticada de sismómetros, deformímetros GPS e sensores de infrassom circunda o vulcão. Estes instrumentos detetam o movimento do magma no subsolo e a pressão acústica das explosões.
- Alertas de Cinzas: A maior ameaça diária são as cinzas. Os observatórios emitem modelos de dispersão regulares, prevendo para onde a nuvem de cinzas viajará com base nos padrões de vento. Isto é crucial para a aviação local (voos para Arequipa) e para os agricultores que precisam de proteger o seu gado e colheitas.
- Preparação da Comunidade: As aldeias do Vale do Colca, particularmente Maca, estão bem treinadas em procedimentos de evacuação. O solo sob elas está constantemente a tremer não apenas devido ao vulcão, mas devido a falhas tectónicas ativas que cruzam o vale, tornando este um dos lugares habitados geologicamente mais perigosos da Terra.
Dados Técnicos
- Altitude: 5.967 m
- Tipo Vulcânico: Estratovulcão
- Status: Ativo / Em curso
- Coordenadas: 15.78°S 71.85°O
- Característica Principal: Vulcão mais ativo do Peru e parte do complexo que revelou a “Dama do Gelo”.
Conclusão
O Sabancaya é mais do que apenas um vulcão; é uma personagem central no drama dos Andes do Sul. É um destruidor de gelo, um construtor de montanhas e uma força espiritual que exigiu reverência desde os Incas até aos dias de hoje. A sua “Língua de Fogo” continua a falar, contando uma história de juventude geológica e transformação violenta que ecoa através dos profundos desfiladeiros sob os seus pés.