Galeras: O Leão Adormecido dos Andes - O Vizinho Mais Perigoso da Colômbia
Descubra o Galeras, um dos vulcões mais ativos e perigosos das Américas. Saiba mais sobre sua geologia, a trágica erupção de 1993 e a complexa relação entre o vulcão e a cidade de Pasto.
O Galeras (historicamente conhecido como Urcunina) não é apenas um vulcão; é uma presença imponente que define a vida diária de quase meio milhão de pessoas. Localizado no Departamento de Nariño, no sul da Colômbia, seu cume eleva-se 4.276 metros acima do nível do mar. Embora seja majestoso, também é aterrorizantemente próximo da civilização. A cidade de Pasto fica a apenas 9 quilômetros do da cratera ativa, praticamente no sopé do gigante.
Essa proximidade valeu ao Galeras a designação de Vulcão da Década pelas Nações Unidas, um título reservado para 16 vulcões em todo o mundo que representam o maior risco para as populações humanas. É um vizinho geológico que exige vigilância constante, respeito e medo.
Contexto Geológico: O Complexo de Fogo
O Galeras não é um cone simples e único. É um estratovulcão complexo com uma história que abrange mais de um milhão de anos.
- O Anfiteatro: O cone ativo moderno situa-se dentro de uma enorme caldeira em forma de ferradura (anfiteatro) que se abre para o oeste. Esta caldeira foi formada por um colapso catastrófico do edifício vulcânico há aproximadamente 40.000 anos.
- O Cone Ativo: Dentro desta antiga cicatriz ergue-se o cone ativo atual, que é ligeiramente mais baixo que a borda da caldeira. Este cone interno é a fonte de toda a atividade moderna, emitindo constantemente gás, cinzas e ocasionais fluxos piroclásticos.
- Cenário Tectônico: A Colômbia situa-se na interseção de três placas tectônicas. O Galeras é alimentado pela subducção da Placa de Nazca sob a Placa Sul-Americana, o mesmo motor que impulsiona todo o Cinturão Vulcânico Andino.
Uma História de Violência
O Galeras tem entrado em erupção frequentemente há milhares de anos. O povo indígena Quillacinga, que habitava a região antes da conquista espanhola, chamava-o de Urcunina, que significa “Montanha de Fogo”.
- Atividade Histórica: Desde a chegada dos espanhóis no século XVI, mais de 20 grandes erupções foram registradas. Essas erupções frequentemente envolvem ejeções explosivas de cinzas e rochas, afetando a agricultura e as cidades vizinhas.
- Os Séculos XIX e XX: O vulcão permaneceu consistentemente ativo, mas foi o despertar em 1988 após uma dormência de 40 anos que alarmou os cientistas modernos.
A Tragédia de 1993
O evento mais infame na história recente do Galeras ocorreu em 14 de janeiro de 1993. Não foi a maior erupção geologicamente, mas foi uma das mais trágicas para a comunidade científica.
- A Conferência: Pasto estava sediando uma conferência internacional de vulcanologia (IAVCEI). Como parte do evento, uma equipe de cientistas de renome mundial, liderada por Stanley Williams, caminhou até a cratera ativa para coletar amostras de gases e medir as mudanças de gravidade. O vulcão mostrava baixa atividade sísmica e foi considerado seguro.
- A Erupção: Sem aviso, o Galeras explodiu. Foi uma pequena erupção freática, mas para aqueles dentro da cratera, foi catastrófica. Rochas superaquecidas e gás choveram sobre os pesquisadores.
- As Consequências: Seis cientistas e três turistas foram mortos. Vários outros, incluindo Williams, ficaram gravemente feridos. A tragédia provocou um debate global sobre protocolos de segurança para a vulcanologia de campo e a ética de arriscar vidas por dados. Destacou a natureza imprevisível e “quimérica” de vulcões como o Galeras.
A Vida na Zona de Perigo: A Cidade de Pasto
A relação entre o vulcão e a cidade de Pasto é complexa e tensa.
- A Ameaça: O principal perigo para Pasto não são necessariamente os fluxos de lava, mas os fluxos piroclásticos (avalanches de gás quente e rocha) e os lahars (fluxos de lama). Como a caldeira se abre para o oeste (longe da cidade), a cidade tem alguma proteção natural, mas grandes colunas de erupção podem colapsar e derramar sobre a borda da cratera em direção ao centro urbano.
- O “Mapa de Ameaça”: Em 2005, o governo colombiano atualizou o mapa de perigos, declarando grandes partes da cidade e áreas rurais vizinhas como “Zonas de Alto Risco”. Eles ordenaram evacuações obrigatórias para milhares de pessoas.
- Resistência Social: As ordens de evacuação encontraram forte resistência. Muitos moradores locais, que vivem com o vulcão há gerações, recusaram-se a deixar suas terras e meios de subsistência. Eles veem o vulcão não apenas como uma ameaça, mas como um provedor de solo fértil e um identificador cultural. Este conflito entre os mandatos de segurança científica e a realidade social continua a ser um grande desafio para as autoridades de defesa civil.
A Ciência do Infrassom
O Galeras é um vulcão “barulhento”, mas nem sempre para os ouvidos humanos.
- A Rede de Microfones: Os cientistas usam uma rede de matrizes de infrassom (som de baixa frequência) para “ouvir” o vulcão.
- Os “Tornillos”: Antes de explosões, o Galeras produz frequentemente um sinal sísmico único chamado “tornillo” (parafuso) porque se parece com a rosca de um parafuso no sismograma. Estes sinais são vibrações de fluidos (gás/magma) nas fissuras e são um sinal de aviso chave de que a pressão está criticamente alta.
Ouro e o Vulcão
A geologia de Nariño não é apenas vulcânica; é metálica.
- Ouro Pré-Colombiano: Os indígenas Quillacinga eram mestres ourives. O calor vulcânico impulsionou fluidos hidrotermais através da rocha, depositando veios de ouro na região.
- Mineração: Hoje, a mineração artesanal ainda existe na periferia das zonas de perigo, adicionando outra camada de complexidade económica aos debates sobre evacuação.
O Café das Nuvens
As encostas do vulcão produzem alguns dos cafés de maior altitude da Colômbia.
- Perfil de Sabor: Cultivado a mais de 2.000 metros em solo de cinza vulcânica, o café Galeras é conhecido pela sua alta acidez e notas cítricas.
- Risco: A erupção de 2010 cobriu as cerejas de café com cinzas pouco antes da colheita. Os agricultores tiveram de lavar as árvores à mão para salvar a colheita, demonstrando a resiliência da comunidade agrícola.
O Carnaval de Negros e Brancos
Viver ao lado da morte faz com que se celebre a vida com mais intensidade.
- O Festival: O Carnaval de Negros y Blancos em Pasto é um evento de Património Cultural Imaterial da UNESCO realizado todos os meses de janeiro.
- A Conexão: O carnaval coincide frequentemente com o aniversário da erupção de 1993. O “Dia dos Brancos” (6 de janeiro) envolve a cidade ser coberta de pó de talco branco — uma imitação alegre da cinza vulcânica que temem.
O Santuário de Flora e Fauna
Paradoxalmente, as encostas deste perigoso vulcão são um refúgio para a vida. O Santuario de Fauna y Flora Galeras envolve o complexo vulcânico.
- Ecossistemas: A montanha abriga uma variedade de ecossistemas, desde densas florestas nubladas andinas em elevações mais baixas até o ventoso páramo perto do cume.
- Vida Selvagem: O santuário é o lar de mais de 100 espécies de aves, incluindo beija-flores e águias. É também um refúgio para o urso-de-óculos, veados e o sapo endêmico de Galeras. As frequentes quedas de cinzas enriquecem o solo, criando um manto verdejante e exuberante que mascara o coração ardente abaixo.
Turismo e Acesso
O acesso ao cume do Galeras é estritamente regulamentado e frequentemente proibido, dependendo do nível de atividade.
- Níveis de Alerta: O Serviço Geológico Colombiano usa um sistema de alerta codificado por cores (Verde, Amarelo, Laranja, Vermelho). Durante os alertas Amarelo ou Laranja, o acesso às encostas superiores é fechado.
- A Estrada Circular: Uma maneira popular de experimentar o vulcão sem escalá-lo é a “Circunvalar al Galeras”, uma estrada que circunda toda a montanha. Passa por cidades encantadoras como Sandoná (famosa por chapéus de palha), Yacuanquer e Genoy, oferecendo vistas espetaculares do vulcão de todos os ângulos.
- Caminhadas: Quando as condições permitem, caminhadas guiadas podem levar os visitantes à área da lagoa Telpis ou à borda da caldeira, mas entrar na própria cratera é estritamente proibido.
Conclusão
O Galeras é um lembrete do delicado equilíbrio entre a civilização e a natureza. É um laboratório científico, uma fonte de vida para o ecossistema e uma Espada de Dâmocles pendurada sobre a cidade de Pasto. Entender o Galeras é entender a resiliência do povo colombiano que vive, cultiva e constrói suas vidas à sombra do gigante.
Tradição Culinária: Cuy
Uma visita ao Galeras está incompleta sem a comida.
- Cuy Asado: O porquinho-da-índia assado é a iguaria regional de Nariño.
- O Ritual: É tradicionalmente comido durante festivais e reuniões familiares. Os melhores restaurantes de cuy encontram-se na estrada para o vulcão, onde os animais são criados com erva cultivada no solo vulcânico.
O Sapo Endémico: Complexo Atelopus
- O “Sapo Arlequim”: Os riachos de alta altitude do Galeras já estiveram cheios de sapos arlequim coloridos.
- Ameaça de Extinção: Tal como muitos anfíbios nos Andes, foram dizimados pelo fungo quitrídeo e pelas alterações climáticas. O santuário é um dos últimos redutos onde os cientistas tentam salvar estas “joias da floresta nublada”.
O Qhapaq Ñan
O antigo sistema rodoviário Inca passava por aqui.
- A Rota: Vestígios da rede rodoviária pré-hispânica ainda podem ser encontrados nos flancos do vulcão.
- Comércio: Era uma rota comercial vital que ligava a Amazónia à costa do Pacífico, permitindo a troca de folhas de Coca por sal marinho. O vulcão era um marco que guiava estes antigos viajantes.
Fatos Rápidos
- Localização: Departamento de Nariño, Colômbia
- Coordenadas: 1.22° N, 77.37° O
- Elevação do Cume: 4.276 m
- Tipo de Vulcão: Estratovulcão Complexo
- Última Erupção Importante: 2010 (Emissões menores de cinzas continuam)
- Perigo Principal: Fluxos piroclásticos afetando Pasto.
- Status: Ativo (frequentemente em alerta Amarelo/Laranja).