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1816: O Ano Sem Verão

2 de janeiro de 2026 • Por Equipa MagmaWorld

Os livros de história costumam atribuir a queda de impérios ou a mudança de fronteiras a guerras, reis e política. Mas, às vezes, a história é escrita pela geologia. Um dos exemplos mais profundos disso ocorreu no início do século XIX, quando uma montanha do outro lado do mundo explodiu, mergulhando o Hemisfério Norte em uma catástrofe climática que ficou conhecida como “O Ano Sem Verão”.

O ano era 1816. Mas a história começa um ano antes, na ilha de Sumbawa, na atual Indonésia.

A Erupção do Monte Tambora

Em 10 de abril de 1815, o Monte Tambora acordou com um rugido que foi ouvido a 2.000 quilômetros de distância. Foi a maior erupção vulcânica na história humana registrada — muito maior que Krakatoa (1883) ou o Monte Santa Helena (1980).

  • IEV 7: A erupção foi classificada com um Índice de Explosividade Vulcânica (IEV) de 7.
  • Montanha Decapitada: Antes da erupção, Tambora tinha cerca de 4.300 metros (14.100 pés) de altura. Depois, foi reduzido a apenas 2.850 metros (9.350 pés).
  • O Material: Ejetou cerca de 150 quilômetros cúbicos de rocha, cinzas e pedra-pomes.

Mas o verdadeiro assassino não foi a rocha; foi o gás. Tambora injetou cerca de 60 a 80 milhões de toneladas de dióxido de enxofre (SO2) diretamente na estratosfera.

O Véu Atmosférico

Uma vez na estratosfera, esse dióxido de enxofre reagiu com o vapor de água para formar um véu global de aerossóis de ácido sulfúrico. Essa névoa circulou o planeta, agindo como um espelho gigante. Ela refletiu uma pequena, mas significativa porcentagem da luz solar de volta para o espaço.

O resultado foi uma queda global na temperatura de cerca de 0,5°C a 0,7°C (0,9°F a 1,3°F). Embora isso pareça menor, no delicado equilíbrio do clima mundial, foi catastrófico. Interrompeu a corrente de jato e os sistemas climáticos em todo o mundo, transformando o verão de 1816 em um inverno.

O Contexto da Pequena Era do Gelo

É importante notar que o mundo já estava em um período frio conhecido como Pequena Era do Gelo (aproximadamente 1300 a 1850). A atividade solar estava baixa (o Mínimo de Dalton), e vários outros vulcões menores haviam entrado em erupção nos anos anteriores a 1815. Tambora foi o golpe de nocaute que empurrou o sistema climático para o limite, transformando uma década fria em uma congelada.

Uma Catástrofe Global

América do Norte: “Mil Oitocentos e Morreu de Frio”

Na Nova Inglaterra e no leste do Canadá, o tempo enlouqueceu.

  • Neve em Junho: Em 6 de junho de 1816, a neve caiu em Albany, Nova York, e Dennysville, Maine.
  • Colheitas Congeladas: As geadas ocorreram em julho e agosto, matando o milho e outras culturas básicas nos campos.
  • Migração: O fracasso da colheita empurrou milhares de agricultores da Nova Inglaterra a abandonar suas terras e migrar para o oeste, para o Território de Ohio, acelerando a colonização do Meio-Oeste americano.

A Grande Migração para o Oeste

O impacto nos Estados Unidos foi demográfico e agrícola. Vermont, por exemplo, viu um êxodo populacional. Os agricultores que não podiam mais contar com a curta estação de crescimento da Nova Inglaterra empacotaram suas carroças e seguiram para a “fronteira” de Ohio e Indiana. Essa crise de refugiados climáticos efetivamente acelerou a expansão dos Estados Unidos para o oeste por décadas.

Europa: O Contexto Napoleônico

A Europa estava unicamente vulnerável em 1816. O continente acabara de sair de mais de uma década de Guerras Napoleônicas (que terminaram em Waterloo em 1815). A economia estava destruída, as rotas comerciais estavam interrompidas e havia milhões de soldados desmobilizados procurando trabalho. Quando a colheita falhou, não havia rede de segurança.

  • Chuva Sem Fim: Os aerossóis vulcânicos interromperam a Oscilação do Atlântico Norte, fazendo com que a chuva fria caísse incessantemente na Grã-Bretanha, França e Alemanha.
  • Fome: Trigo, aveia e batatas apodreceram nos campos. Os preços do pão dispararam. Revoltas por comida estouraram na França e na Suíça. Estima-se que 200.000 pessoas morreram de fome e epidemias de tifo exacerbadas pela desnutrição.

O Impacto Econômico

A crise devastou economias. Na Suíça, o preço do pão quadruplicou. Para sobreviver, as pessoas recorreram a comer musgo e gatos. O governo do Reino Unido, temendo a revolução, suspendeu a Lei de Habeas Corpus em 1817 à medida que os distúrbios se espalhavam. Foi uma lição dura sobre o quão frágil a economia pré-industrial era aos choques climáticos.

Ásia: A Conexão com a Cólera

Na China e na Índia, o efeito de resfriamento enfraqueceu as monções de verão.

  • China: O tempo frio matou as colheitas de arroz na província de Yunnan, levando a uma fome massiva.
  • Índia: As chuvas de monção atrasadas e erráticas causaram um surto de cólera no Delta do Ganges. A bactéria, Vibrio cholerae, prospera em água morna e salgada, mas a seca seguida de inundações criou as condições perfeitas para o surgimento de uma nova cepa virulenta. Esse surto não permaneceu local. Ele se espalhou ao longo das rotas comerciais para a Rússia, Europa e, eventualmente, América do Norte, tornando-se a Primeira Pandemia de Cólera. Em uma estranha reviravolta do destino, um vulcão na Indonésia foi indiretamente responsável por matar pessoas em Londres e Nova York décadas depois por meio de doenças.

Reavivamentos Religiosos

Nos Estados Unidos, o clima bizarro foi interpretado por muitos como um sinal da ira de Deus. Os céus escurecidos e as falhas nas colheitas alimentaram um período de intenso fervor religioso conhecido como o Segundo Grande Despertar. Milhares se reuniram em reuniões de avivamento, acreditando que o fim dos tempos se aproximava. Esse movimento deu origem a novas denominações e movimentos de reforma social (como o abolicionismo) que moldariam a história americana pelo resto do século.

O Legado Cultural: Monstros no Escuro

A chuva sombria e implacável de 1816 teve um efeito colateral inesperado: deu origem à ficção de terror moderna.

No verão de 1816, um grupo de jovens escritores britânicos reuniu-se na Villa Diodati, perto do Lago Genebra, na Suíça. O grupo incluía o poeta Lord Byron, seu médico John Polidori, o poeta Percy Bysshe Shelley e sua amante de 18 anos, Mary Godwin (mais tarde Mary Shelley).

Eles haviam planejado um verão de passeios de barco e caminhadas, mas o clima vulcânico os prendeu dentro de casa por dias a fio. Para passar o tempo, Lord Byron propôs um concurso: cada um escreveria uma história de fantasma.

Frankenstein

Mary Shelley, lutando para encontrar uma ideia, teve um “sonho acordado” de um estudante pálido ajoelhado ao lado da coisa que havia montado. O resultado foi “Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno.” A criatura — um pária em um mundo frio e duro — pode ser vista como um reflexo dos refugiados famintos e deslocados vagando pela Europa naquele ano.

O Vampiro

Lord Byron escreveu um fragmento de uma história, que John Polidori mais tarde desenvolveu em “O Vampiro”. Esta novela introduziu o personagem Lord Ruthven, o primeiro vampiro aristocrático sofisticado da literatura. Este arquétipo inspirou diretamente o Drácula de Bram Stoker.

Portanto, sem a erupção do Monte Tambora, talvez não tivéssemos o monstro de Frankenstein ou o vampiro moderno.

O Legado Tecnológico: A Bicicleta

A fome teve outra baixa: cavalos. Com os preços da aveia subindo, as pessoas não podiam pagar para alimentar seus animais. Milhares de cavalos morreram de fome ou foram abatidos para alimentação.

Na Alemanha, o inventor Karl von Drais estava procurando uma maneira de se locomover sem um cavalo. Em 1817, em grande parte em resposta à escassez de cavalos causada pela crise de 1816, ele inventou a Laufmaschine (“máquina de correr”) ou Draisine. Ela tinha duas rodas e um mecanismo de direção — o antepassado direto da bicicleta moderna.

Arte: O Céu Vulcânico

Os aerossóis vulcânicos na estratosfera espalharam a luz solar de maneiras incomuns, criando pores do sol espetaculares e vibrantes de vermelho, laranja e roxo.

O pintor inglês J.M.W. Turner capturou esses “céus vulcânicos” em suas famosas paisagens. Suas pinturas deste período, como Canal de Chichester (1828), são dominadas por céus luminosos e amarelados que os cientistas agora acreditam serem representações precisas do véu de poeira de Tambora.

Legado Científico: O Nascimento da Modelagem Climática

O evento de 1816 não é apenas uma lição de história; é um ponto de dados vital para a ciência moderna.

  • Validando Modelos: Quando os cientistas constroem modelos de computador para prever o aquecimento global futuro, eles os testam executando-os “para trás” para ver se conseguem reproduzir com precisão o resfriamento de 1816. Se um modelo pode simular o Ano Sem Verão corretamente, temos mais confiança em suas previsões para o futuro.
  • Geoengenharia: O efeito de resfriamento de Tambora é a principal evidência por trás do conceito de “geoengenharia solar” — a ideia de que poderíamos injetar deliberadamente sulfatos na atmosfera para resfriar o planeta.

Conclusão

O “Ano Sem Verão” serve como um lembrete humilhante da vulnerabilidade da humanidade às forças geológicas. Uma única montanha, explodindo a milhares de quilômetros de distância, remodelou a demografia dos Estados Unidos, causou uma pandemia na Índia, matou a Europa de fome, inventou a bicicleta e deu à luz os monstros mais duradouros de nossa literatura.

Também serve como um estudo de caso para a ciência climática moderna. Ao estudar o efeito de resfriamento de 1816, os cientistas conseguiram calibrar modelos climáticos para entender como a Terra reage a mudanças na forçante radiativa — conhecimento crítico para entender nossa crise atual de aquecimento global.

Principais Conclusões

  • A Causa: Monte Tambora (1815), a maior erupção da história (IEV 7).
  • O Mecanismo: Aerossóis de dióxido de enxofre refletiram a luz solar, resfriando o globo em ~0,5°C.
  • O Contexto: Ocorreu durante a Pequena Era do Gelo e pós-Guerras Napoleônicas.
  • As Consequências: Neve de verão nos EUA, fome na Europa, cólera na Índia.
  • Impacto Cultural: Inspirou Frankenstein de Mary Shelley e O Vampiro de Polidori.
  • Invenção: A escassez de cavalos levou à invenção da bicicleta (Draisine).