Viver na Sombra de Gigantes: A Psicologia dos Habitantes de Vulcões
Para quem está de fora a viver na segurança de uma planície plana, parece uma loucura. Por que alguém construiria uma casa, uma escola ou um hospital no caminho direto de um fluxo piroclástico? Por que milhões de pessoas na Indonésia, Itália, México, Japão e Filipinas dormem profundamente sob picos fumegantes que poderiam aniquilá-los num instante?
Nápoles, com os seus 3 milhões de habitantes, está entalada entre o Monte Vesúvio e o supervulcão Campi Flegrei. Tóquio está ao alcance do Monte Fuji. Seattle está sob a ameaça glaciada do Monte Rainier.
A resposta não é simplesmente “eles não têm escolha”. A relação entre a humanidade e os vulcões é uma tapeçaria complexa de necessidade económica, identidade cultural, fé religiosa e adaptação psicológica. É uma relação tão antiga quanto a própria civilização.
A Atração Fatal: A Dádiva do Solo
A razão mais pragmática é o solo. Os vulcões são os motores da agricultura.
- A Bomba de Nutrientes: O magma das profundezas da Terra é rico em minerais como potássio, fósforo, cálcio e magnésio. Quando esta rocha é expelida em cinzas e aterra na superfície, decompõe-se rapidamente.
- Andissolos: Isto cria um tipo específico de solo chamado Andissolo. É leve, fofo, retém bem a água e é incrivelmente fértil.
- A Colheita:
- Indonésia: Na ilha de Java, os agricultores podem colher arroz três vezes por ano. A densidade populacional reflete a densidade vulcânica. Quanto mais vulcões, mais comida, mais pessoas.
- Itália: As encostas de Etna e Vesúvio estão cobertas de vinhas e pomares. O famoso vinho Lacryma Christi e o tomate San Marzano são produtos desta terra perigosa.
- O Cálculo: Para um agricultor de subsistência, o risco de uma futura erupção é abstrato. O risco de passar fome hoje por causa do solo pobre é real. O vulcão dá vida com mais frequência do que a tira.
A Âncora Cultural: Deuses, Espíritos e Antepassados
Para muitas culturas, o vulcão não é um acidente geológico; é uma pessoa. Tem um nome, uma personalidade e uma vontade.
Indonésia: O Sultão e o Espírito
O Monte Merapi (“A Montanha de Fogo”) é um dos vulcões mais ativos da Terra.
- A Cosmologia: Para os javaneses, a montanha é o centro do universo. É um reino de espíritos. O Sultão de Yogyakarta é responsável por manter o equilíbrio cósmico entre a montanha e o mar.
- O Guardião: O Sultão nomeia um Juru Kunci (Guardião das Chaves), um guardião espiritual que vive nas encostas. Na erupção de 2010, o famoso guardião Mbah Maridjan recusou-se a evacuar, acreditando que o seu dever espiritual era ficar e rezar. Ele morreu no fluxo piroclástico, numa posição de oração.
- A Lição: Os habitantes locais veem uma erupção não como uma falha mecânica da crosta, mas como um sinal de desagrado ancestral ou desequilíbrio moral no mundo. Não se “gere” um deus; respeita-se.
Havai: O Corpo de Pelé
No Havai, a divindade do vulcão é Pelé. Ela reside na cratera Halemaʻumaʻu do Kilauea.
- A Perspetiva: Os fluxos de lava não são desastres; são a Pelé a limpar a sua casa. São o seu corpo físico a reivindicar a terra.
- A Resposta: Quando uma casa é destruída pela lava, os nativos havaianos deixam frequentemente oferendas de gin e folhas de ti. Não é uma tragédia no sentido ocidental de “perda”, mas um retorno da terra ao seu legítimo proprietário. Esta crença profundamente enraizada ajuda as pessoas a lidar com o trauma da perda.
México: Don Goyo
Popocatépetl, o gigante fumegante com vista para a Cidade do México, é carinhosamente chamado de “Don Goyo”.
- A Personificação: Os habitantes locais veem-no como um avô rabugento ou um fazedor de chuva. Temperos (trabalhadores do tempo) sobem a montanha para deixar oferendas de comida e tequila em cavernas para o manter calmo. Se ele retumba, é porque está apenas com fome ou aborrecido.
A Normalização do Risco
Psicologicamente, os humanos são terríveis a avaliar riscos de baixa probabilidade e alta consequência. Como se vive com um monstro? Torna-se mundano.
A Síndrome do “Não Vai Acontecer Comigo”
Se viver perto de um vulcão durante 50 anos e nada acontecer, a ameaça torna-se invisível. Torna-se ruído de fundo, como o trânsito numa autoestrada. Aceitamos que os carros matam milhares de pessoas, mas conduzimos. Da mesma forma, os habitantes de vulcões aceitam o risco como o preço de admissão.
Amnésia Geracional
Os vulcões operam no tempo geológico; os humanos operam em tempos de vida.
- A Lacuna: Grandes erupções podem acontecer apenas uma vez a cada 100 ou 200 anos. Se o seu avô não viu, e o seu pai não viu, a memória desvanece-se em mito.
- A Surpresa: O horror da erupção do Monte Pelée de 1902 é história para nós, mas para o povo da Martinica na altura, a montanha era apenas um local de piquenique. Eles não tinham memória cultural da sua violência.
Dissonância Cognitiva
Para funcionar diariamente, as pessoas devem suprimir o medo. Concentram-se nos benefícios imediatos (empregos, colheitas, casa) e filtram os catastróficos “e se”. Se acordasse todas as manhãs aterrorizado com a montanha, não conseguiria cultivar os campos.
A Armadilha Económica: Pobreza e Geografia
Muitas vezes, a pobreza dita a geografia.
- Terra Barata: Em muitas nações em desenvolvimento, as terras mais seguras (as planícies planas) são caras ou pertencem a grandes empresas. A terra na zona de perigo (as ravinas, as encostas íngremes) é barata ou gratuita.
- Goma, RDC: A cidade de Goma situa-se diretamente no caminho do Monte Nyiragongo. Em 2002, a lava destruiu 15% da cidade. No entanto, a população explodiu para mais de 1 milhão. Porquê? É um centro de oportunidades económicas e um refúgio de conflitos armados na região. As pessoas aceitam o vulcão porque a alternativa (pobreza ou guerra) é pior.
Monitorização Moderna e o Paradoxo da Segurança
Ironicamente, uma melhor ciência pode, por vezes, aumentar a complacência.
- O Alerta “Amarelo”: Quando um vulcão permanece em alerta “Amarelo” ou “Laranja” durante anos (como Sakurajima), as pessoas ficam dessensibilizadas. Torna-se o rapaz que gritou lobo. Param de fazer as malas de emergência.
- Confiança na Tecnologia: Existe a crença de que “os cientistas nos dirão a tempo”. Embora a monitorização tenha melhorado massivamente, os vulcões são imprevisíveis. A erupção de 2014 do Monte Ontake no Japão foi uma explosão freática (vapor) que matou 63 caminhantes sem um único aviso sísmico.
Turismo de Desastre: Flertar com a Morte
Um novo fator é a atração pelo próprio perigo.
- A Vista: Os preços das propriedades sobem frequentemente com vista para um vulcão. Em Puerto Varas, Chile, a vista de Osorno impulsiona um mercado imobiliário em expansão.
- A Adrenalina: Turistas afluem à Islândia, Havai e Vanuatu especificamente por causa das erupções. Isto cria uma economia local inteiramente dependente de o “monstro” permanecer ativo, mas bem comportado. Cria um incentivo perverso para manter os parques abertos, mesmo quando os níveis de perigo aumentam.
Conclusão
Viver na sombra de um gigante é uma aposta calculada. É uma aposta de que a colheita, o património e a casa valem o risco de aniquilação.
Para o cientista, o vulcão é um problema a ser resolvido. Para o residente, é um vizinho com quem se deve viver. À medida que a densidade populacional aumenta, mais pessoas amontoam-se nestas encostas ardentes do que nunca. O desafio para o futuro não é mover estas pessoas — o que muitas vezes é impossível — mas colmatar a lacuna entre os avisos científicos e as crenças culturais. Devemos aprender a falar a língua dos habitantes locais, seja a língua dos rendimentos das colheitas, antepassados ou turismo, para garantir que, quando o gigante finalmente acordar, as pessoas estejam prontas para se mover.